Desde seu lançamento em 2001, Devil May Cry é um pilar estilizado e irreverente da Capcom na cultura pop dos games. Com seu protagonista espadachim, meio demônio, meio galã metaleiro e totalmente debochado, a franquia redefiniu o gênero hack and slash e gerou uma legião fiel de fãs. Entre reboots, retcons e revisões cronológicas, o universo de Dante já passou por todo tipo de experimentação — incluindo um anime canônico em 2007 que, apesar da nostalgia, ficou aquém da essência frenética dos jogos.
Agora, a Netflix, que vem consolidando sua reputação em adaptações de games (Castlevania, Arcane, Cyberpunk: Edgerunners), se une ao produtor Adi Shankar — o mesmo por trás da sanguinolenta animação de Castlevania — para reimaginar esse universo demoníaco em uma nova roupagem animada. E o resultado? Uma viagem estilizada direto para o final dos anos 90 que é ao mesmo tempo deliciosamente brega e brutalmente divertida.

Nesta nova encarnação, acompanhamos Dante, o icônico caçador de demônios, em uma missão pessoal de vingança pela morte de sua mãe e irmão. Quando um novo vilão — o misterioso e excêntrico Coelho Branco — surge querendo unir as duas metades de um colar herdado por Dante para abrir um portal para o inferno, o caos é instaurado. Paralelamente, o vice-presidente dos EUA (sim, é isso mesmo) mobiliza a empresa paramilitar Darkcom, liderada pela durona Lady, para impedir o apocalipse iminente. Com demônios, conspirações, armas absurdas e trilhas sonoras dignas de CDs piratas de nu metal, a série mergulha de cabeça na estética noventista.
A maior virtude da série é sua autenticidade. Não no sentido de fidelidade ao lore dos jogos, mas na forma como abraça completamente o exagero. A ação, dirigida com primor pelo Studio Mir (A Lenda de Korra), é explosiva, coreografada com criatividade e sustentada por uma animação surpreendentemente polida. Desde os primeiros minutos, é claro que Shankar quer entregar uma experiência visual que honre o estilo caótico do jogo original — e ele consegue.

A trilha sonora também é um deleite para fãs do gênero: uma mescla entre covers de clássicos da franquia (como “Devil Trigger” e “Bury the Light”) e faixas originais com aquele jeitão edgy que faria qualquer adolescente do início dos 2000 se sentir radical. Há ainda uma enxurrada de easter eggs e referências a outros jogos da Capcom, como Resident Evil e Captain Commando, que funcionam como fanservice sem vergonha.
Outro ponto forte é o vilão Coelho Branco. Apesar de sua motivação clichê e previsível, seu design e o episódio focado em sua história — com uma mudança de estilo de animação — são o ápice da primeira temporada. É ali que a série mostra que, mesmo em meio ao caos, há espaço para momentos genuinamente criativos.
Mas nem tudo são combos estilosos e frases de efeito. A série peca justamente onde mais importa: na construção narrativa. Apesar de introduzir um universo alternativo interessante, a trama parece mais interessada em construir o estilo do que sustentar a substância. Os primeiros episódios são basicamente exposição pura, com diálogos forçados e piadas que, muitas vezes, não funcionam.

Dante, apesar de carismático e interpretado competentemente por Johnny Yong Bosch (e com boa dublagem brasileira por João Cappelli), não tem um arco claro. Ele parece um convidado em sua própria história, que é dominada por Lady — personagem reformulada para ser co-protagonista, mas escrita de forma tão exagerada e incoerente que beira o paródico. Sua linguagem agressiva e comportamento impulsivo não servem à trama; parecem mais parte de uma tentativa forçada de parecer “cool”.
A subtrama política envolvendo extremismo, imigração e imperialismo soa deslocada dentro desse universo e levanta discussões mal resolvidas. A tentativa de transformar os demônios em alegorias sociopolíticas acaba sendo rasa e desconectada da lógica interna do próprio mundo apresentado.
Além disso, personagens clássicos da franquia como Agni e Rudra, Echidna e Cavaliere Angelo são desperdiçados como capangas genéricos — um pecado imperdoável para os fãs mais antigos. A série quer adaptar o universo do jogo, mas frequentemente parece envergonhada ou confusa sobre o que exatamente quer dizer com isso.

A primeira temporada de Devil May Cry da Netflix é como um combo bem feito no jogo: estiloso, exagerado e satisfatório — mas nem sempre útil. Ela não é a adaptação definitiva da franquia, tampouco tenta sê-la. Adi Shankar entrega uma homenagem caótica aos anos 90, com personagens que gritam, cenários que explodem e demônios que filosofam sobre o caos americano pós-11 de setembro. E tudo isso com uma trilha de nu metal ao fundo.
Para os fãs mais puristas, a série pode parecer um pesadelo animado. Para os que aceitarem o convite para esse inferno estilizado, há muito o que se divertir — e espaço de sobra para melhorias em uma já confirmada segunda temporada. Se o escritório de Dante continua aberto para negócios, a Netflix parece pronta para investir nessa franquia por mais tempo.
Devil May Cry (2025) é um delírio noventista com alma de Saturday Morning Cartoon +18. Falha na profundidade, mas acerta em cheio na ação e no espírito do caos. Um guilty pleasure imperdível para os caçadores de demônios de plantão.


