Os filmes de aventura familiar marcaram uma geração inteira com títulos como Jumanji (1995), As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl (2005) e Pequenos Espiões (2001). Obras que misturavam fantasia, imaginação e lições de vida, sempre embaladas em narrativas cheias de cor e emoção. Agora, em 2025, esse espírito retorna com força através de Desenhos (Sketch), produção independente dirigida por Seth Worley, que entrega uma mistura ousada de live-action e animação digital, equilibrando diversão, imaginação e um olhar profundo sobre temas delicados como luto e crescimento emocional.
Amber Wyatt (Bianca Belle), de apenas 10 anos, carrega um mundo de sombras desde a morte da mãe. Para lidar com seus sentimentos, ela passa a desenhar tudo em um diário secreto — criaturas bizarras, corações famintos e até versões distorcidas de si mesma. Mas, quando o caderno cai acidentalmente em um lago misterioso com propriedades mágicas, esses rabiscos ganham vida, escapando para o mundo real. Agora, Amber, seu irmão Jack (Kue Lawrence) e o pai Taylor (Tony Hale) precisam encarar não apenas monstros coloridos e grotescos, mas também as dores e traumas que vêm tentando evitar. O desafio se intensifica quando surge a ameaça mais perigosa: a própria versão sombria da menina, saída diretamente de suas páginas.

Desenhos é uma grata surpresa. Seth Worley cria um híbrido de aventura e fantasia que se comunica com o público infanto-juvenil, mas sem abrir mão de camadas emocionais mais densas, lembrando muito a forma como O Babadook lidou com o luto — só que aqui em um tom mais lúdico e mesclando com Jumanji.
O ponto mais forte do filme está em seu conceito visual. As criaturas, por mais rudimentares que sejam, carregam exatamente o charme da proposta: parecem realmente saídas do caderno de uma criança. Monstros de giz se desmancham em poeira colorida, bonecos de canetinha ganham texturas quase artesanais, e tudo isso dá um frescor criativo raro em produções atuais. Essa simplicidade, longe de ser um problema, cria identidade própria e reforça a ideia de que estamos mergulhando na mente de Amber.

Nas atuações, Bianca Belle dá vida à protagonista com carisma e vulnerabilidade. Seu desempenho transmite tanto a inocência de uma criança em sofrimento quanto a força de alguém que aprende a enfrentar seus próprios monstros. Tony Hale, conhecido por papéis cômicos, entrega aqui uma versão contida e humana de um pai em luto, funcionando como o coração emocional da trama. Já Kue Lawrence cumpre bem o papel do irmão mais velho, sendo a ponte entre o peso do drama e a leveza da aventura.
O filme, porém, não é isento de problemas. A direção, em alguns momentos, alonga demais certas sequências de ação, o que pode quebrar o ritmo. Além disso, a abordagem didática sobre lidar com emoções pode soar excessivamente explícita para parte do público adulto. Ainda assim, esses deslizes não chegam a comprometer o resultado geral.

Uma das grandes qualidades de Desenhos está em suas analogias. O fato de Amber “expulsar” seus medos e ansiedades através do desenho conversa diretamente com a ideia de que a arte é uma ferramenta poderosa de autoconhecimento e cura. As criaturas são, na verdade, representações físicas de sentimentos que, se reprimidos, podem escapar de controle. É uma metáfora clara, mas eficiente, que aproxima a narrativa tanto das crianças quanto dos pais.
Desenhos não é apenas mais um filme de aventura infantil: é uma carta de amor à imaginação como forma de enfrentar a dor. Ao misturar elementos fantásticos com temas profundos, Seth Worley entrega uma obra criativa, visualmente única e carregada de emoção. Apesar de seus tropeços, o longa encontra equilíbrio entre a fantasia divertida e a mensagem poderosa sobre família, luto e superação.
No fim, Desenhos consegue se colocar na mesma prateleira de clássicos modernos do gênero: um filme que diverte as crianças, toca os adultos e deixa a todos com a sensação de que, às vezes, encarar os próprios monstros é o maior ato de coragem possível.


