A comédia pastelão dos anos 80 e 90 criou clássicos que, mesmo décadas depois, continuam arrancando risadas sinceras. Filmes como Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu! (1980), Corra que a Polícia Vem Aí! (1988) e Top Gang! (1991) definiram uma era onde o humor absurdo, os trocadilhos infames e a atuação “séria” diante das situações mais ridículas eram a receita perfeita para o riso. Eram obras que não se preocupavam com a plausibilidade — o objetivo era criar um ritmo frenético de gags visuais, piadas simultâneas e um mundo onde a lógica se tornava a primeira vítima. Mas, com a mudança do consumo de humor para esquetes curtos no streaming e redes sociais, trazer de volta esse tipo de comédia ao cinema é, no mínimo, um ato ousado.
No novo Corra que a Polícia Vem Aí, Liam Neeson assume o papel de Frank Drebin Jr., filho do lendário investigador interpretado por Leslie Nielsen na trilogia original. Agora à frente do decadente Esquadrão de Polícia de Los Angeles, Drebin Jr. precisa evitar que sua equipe seja fechada após um assassinato de alto perfil. Ao lado de uma misteriosa escritora (Pamela Anderson), ele mergulha numa investigação que envolve um bilionário de uma Big Tech e planos tão absurdos que fariam até vilões de Kingsman corarem. Entre perseguições, lutas improvisadas e desastres cômicos, o filme mantém a fórmula da série: uma trama simples como pano de fundo para uma sequência ininterrupta de piadas.

O grande trunfo do filme está justamente na escolha de Liam Neeson. Conhecido por papéis intensos e de ação, o ator abraça o humor físico e verbal sem abandonar seu semblante sisudo — e é nessa seriedade que a comédia encontra força. A simples presença dele, tentando manter dignidade enquanto é lançado por um carro desgovernado ou improvisa um interrogatório usando câmeras internas de uma viatura, é um acerto que remete diretamente à genialidade de Leslie Nielsen.
Pamela Anderson, por sua vez, surpreende pela química com Neeson. Mesmo que seu papel siga o estereótipo do “interesse romântico” da franquia, ela aproveita o espaço para entregar alguns dos momentos mais engraçados, como a cena do jazz improvisado e a sequência do boneco de neve. Entre os vilões, Danny Huston e Kevin Durand se destacam por abraçarem a caricatura, enquanto Paul Walter Hauser brilha como coadjuvante de luxo, mantendo o ritmo das piadas.

Tecnicamente, Akiva Schaffer entende o espírito do original: montagem ágil, gags sobrepostas e trilha sonora que alterna entre o épico exagerado e os instrumentos de sopro típicos da série. A estrutura narrativa funciona mais como uma “cola” para as esquetes, evitando que as piadas soem desconectadas. O filme ainda ousa atualizar seu alvo satírico — se antes a mira estava na política e nos conflitos militares, agora a crítica recai sobre bilionários, Big Techs e a obsolescência institucional da polícia americana.
Por outro lado, o longa tropeça no ritmo. Com menos de 90 minutos, ainda há momentos onde o timing cômico se perde, especialmente em algumas piadas estendidas além do necessário. A decisão de exibir apenas cópias dubladas para a imprensa no Brasil também foi infeliz: a tradução literal e a falta de adaptação de certos trocadilhos comprometem o efeito cômico em partes cruciais. Outro ponto é que, apesar das atualizações de roteiro, algumas piadas soam recicladas demais, deixando a sensação de “já vi isso antes” para quem conhece o gênero.

Corra que a Polícia Vem Aí (2025) não revoluciona a comédia pastelão, mas entrega exatamente o que promete: uma sequência de absurdos embalados por atuações comprometidas e uma direção que respeita o legado da franquia. É um filme consciente do seu papel — resgatar um humor que parecia condenado ao passado — e que, mesmo com tropeços, prova que ainda há espaço para sátiras escrachadas no cinema. Talvez não seja o blockbuster que vai salvar a comédia hollywoodiana, mas certamente arranca gargalhadas suficientes para justificar a volta de Frank Drebin à ativa.


