O diretor Halder Gomes e o ator Edmilson Filho já se consolidaram como uma das duplas mais icônicas da comédia brasileira. Depois de transformar o sertão em palco para kung fu em O Shaolin do Sertão (2016) e brincar com a própria cinefilia nos dois Cine Holliúdy, eles retornam agora com C.I.C – Central de Inteligência Cearense (2025), uma paródia escrachada dos filmes de espionagem internacionais, de James Bond a Missão: Impossível, mas filtrada pelo sotaque, pelas gírias e pelo humor regional.
Na trama, acompanhamos Wanderley (Edmilson Filho), o agente secreto da Central de Inteligência Cearense, conhecido pelo codinome Karkará. Sua missão é digna de um thriller hollywoodiano: recuperar um projeto científico secreto desenvolvido na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, que foi roubado pela misteriosa organização criminosa R.O.L.A.. Para isso, ele conta com a ajuda do agente paraguaio Romerito (Gustavo Falcão) e da agente argentina Micaela (Alana Ferri).
A história, claro, vira de ponta-cabeça: entre cenas de ação absurdas, piadas de quinta série e referências diretas à franquia 007, o que era espionagem se transforma numa grande galhofa.

O grande mérito do filme é justamente abraçar o exagero. Nada aqui é feito para ser levado a sério: desde a apresentação de Wanderley (“meu nome é Ley, Wanderley”) até cenas nonsense como uma luta em cima de um avião que, no fundo, é apenas uma atração de parque aquático. O tom remete ao humor escrachado de Austin Powers, mas com a marca registrada de Halder Gomes: a cultura nordestina sendo celebrada e inserida em contextos improváveis.
Edmilson Filho é o coração do longa. Seu carisma, timing cômico e o jeito inconfundível de falar transformam qualquer fala banal em riso garantido. Ele sabe rir de si mesmo e, ao mesmo tempo, carregar o público com ele nesse jogo de absurdo. O elenco de apoio também funciona bem: Alana Ferri oferece um contraponto curioso, mesclando uma postura mais séria e um senso de humor certeiro com sua agente argentina, enquanto Gustavo Falcão diverte ao transformar o estereótipo do “muambeiro” em arma de combate. Até participações como a de André Segatti brincam com a caricatura do vilão musculoso de ação dos anos 80.

Do ponto de vista técnico, o filme não esconde suas limitações. Os efeitos especiais toscos são assumidos e, em vez de atrapalhar, se tornam parte do charme. A fotografia alterna entre cenários regionais e locações internacionais de forma caricata, reforçando o espírito paródico. A trilha sonora cumpre seu papel, mesmo sem grandes destaques, e o ritmo narrativo, apesar de tropeçar em alguns momentos arrastados, se sustenta pelo desfile de gags e absurdos.
No campo simbólico, C.I.C faz uma analogia bem-humorada sobre como os grandes mitos do cinema de ação podem ser traduzidos para a realidade brasileira. Se em Hollywood os agentes secretos salvam o mundo com gadgets de última geração, aqui o herói cearense enfrenta o mal com seu sotaque, improviso e uma boa dose de deboche. É uma sátira que dialoga tanto com a tradição do besteirol quanto com a vontade de afirmar uma identidade cultural dentro do cinema de gênero.

C.I.C – Central de Inteligência Cearense não é para quem procura realismo ou tensão digna de um 007. É uma comédia escrachada, feita para rir do ridículo e celebrar o exagero. Apesar de algumas barrigas narrativas e piadas que podem não agradar a todos, o filme entrega o que promete: um passeio divertido, debochado e cheio de identidade regional, conduzido pelo carisma irresistível de Edmilson Filho.
Se “Missão: Impossível” mostra Tom Cruise correndo contra o tempo, C.I.C mostra que às vezes o melhor é correr atrás do riso – mesmo que seja em cima de um avião que acaba virando um toboágua.


