Asa Branca: A Voz da Arena | Quando a cinebiografia joga seguro demais na arena

Danilo de Oliveira
6 Min de Leitura
Paris Filmes/Reprodução
2.5 Regular
Critica - Asa Branca: A Voz da Arena

A onda de cinebiografias segue firme em 2025, especialmente no cinema nacional, que encontrou nesse formato uma maneira eficiente de dialogar com o grande público. No entanto, junto com o sucesso, veio também uma padronização perigosa: narrativas lineares, arcos de ascensão, queda e redenção bem delimitados e uma clara preferência pelo caminho mais seguro. Poucas produções se arriscam a romper essa fórmula ou a experimentar novas linguagens. Asa Branca: A Voz da Arena, dirigido por Guga Sander, surge exatamente nesse ponto de tensão entre ousadia e convenção — um filme que ensaia voos mais altos, mas acaba pousando antes de alcançar todo o seu potencial.

Asa Branca: A Voz da Arena acompanha a trajetória de Waldemar Ruy dos Santos, lendário locutor de rodeios que revolucionou o esporte no Brasil com um estilo explosivo, performático e profundamente influenciado pelo rock. De origem humilde, Waldemar encontra na narração um dom inesperado, que o leva a uma ascensão meteórica nos anos 1990. O sucesso, porém, cobra seu preço: excessos, alcoolismo e drogas o empurram para uma queda dolorosa. Entre arenas lotadas, relações desgastadas e decisões autodestrutivas, o filme constrói a jornada de um homem em busca de redenção e reconexão com seu passado, seus afetos e sua própria identidade.

Desde sua sequência inicial, o filme deixa claro que poderia ser algo além do convencional. A escolha de abrir a narrativa com o acidente que encerra a carreira de Asa Branca como peão é poderosa. Filmada quase como um pesadelo expressionista, a cena transforma os touros em figuras mitológicas, símbolos dos demônios internos do protagonista. É um prólogo ousado, que sugere uma cinebiografia mais subjetiva, interessada em psicologia e linguagem visual.

Paris Filmes/Reprodução

Infelizmente, essa promessa não se sustenta. Após a abertura impactante, o longa rapidamente se acomoda na estrutura clássica da cinebiografia tradicional: descoberta do talento, ascensão, excessos, queda e redenção. Não é a fórmula em si que compromete o filme, mas a falta de aprofundamento crítico. Os conflitos são apresentados, mas raramente explorados em sua complexidade. A revolução estética e sonora que Asa Branca promoveu nos rodeios é mais contada do que sentida. A arena, que deveria funcionar como extensão emocional do personagem, nunca ganha status de personagem dramático.

Tecnicamente, o filme revela suas limitações orçamentárias, especialmente nas cenas de rodeio, que surgem de forma pontual e sem a grandiosidade caótica que marcou os espetáculos reais do locutor. Isso cria uma analogia curiosa: um filme sobre um homem que transformou eventos em shows grandiosos, mas que opta por uma encenação contida e controlada.

No elenco, Felipe Simas sustenta o filme com carisma e entrega. Ele consegue transitar entre o visionário e o homem em ruínas com competência, ainda que sua composição vocal na narração careça da potência e da gravidade que tornaram Asa Branca icônico. Entre os coadjuvantes, o destaque absoluto é Camila Brandão, que imprime autenticidade à personagem Jiboia e constrói, ao lado de Simas, a relação mais orgânica e emocionalmente crível do filme. Já o relacionamento com Sandra (Lara Tremouroux) sofre com um roteiro que não desenvolve conflitos ou afetos de forma consistente, tornando esse núcleo mais funcional do que envolvente.

Paris Filmes/Reprodução

A trilha sonora reforça o conservadorismo da obra. Para um personagem que bebeu diretamente da estética do rock para revolucionar um esporte rural, o uso de hard rock genérico soa como uma oportunidade perdida. A música raramente dialoga de forma simbólica com a jornada do protagonista, funcionando mais como preenchimento do que como discurso.

Ainda assim, há méritos claros. Guga Sander conduz a narrativa com respeito ao biografado, sem julgamentos morais fáceis, e opta por uma abordagem honesta sobre os excessos e consequências de uma vida sem limites. A quase ausência de imagens e vídeos reais pode frustrar quem espera uma dimensão documental maior, mas não chega a comprometer a experiência como um todo.

Asa Branca: A Voz da Arena é uma cinebiografia correta, honesta e bem-intencionada, que cumpre sua função, mas raramente ultrapassa a superfície. O filme entretém, emociona em momentos pontuais e faz jus ao legado de Waldemar Ruy dos Santos, mas deixa a sensação de que sua história — tão barulhenta, exagerada e revolucionária — merecia uma abordagem cinematográfica mais ousada. No fim, é um retrato sólido de um furacão humano contado com a segurança de uma brisa controlada. Um bom filme nacional para o fim de ano, ainda que distante de ser tão inesquecível quanto a voz que ecoava nas arenas.

Critica - Asa Branca: A Voz da Arena
Regular 2.5
Nota Cinesia 2.5 de 5
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