Animais Perigosos | Quando o verdadeiro monstro não tem barbatanas

Danilo de Oliveira
4 Min de Leitura
2.5 Regular
Critica - Animais Perigosos

Desde que Steven Spielberg transformou um simples banho de mar em pesadelo com Tubarão (1975), o cinema nunca mais olhou para os oceanos da mesma forma. O subgênero dos “shark movies” se tornou um filão que atravessa décadas — ora com obras marcantes, ora com produções de puro trash. Em 2025, Sean Byrne traz sua versão ao gênero com Animais Perigosos (Dangerous Animals), um thriller que coloca tubarões e seres humanos lado a lado na disputa pelo título de predador mais temido.

Nas águas paradisíacas da Gold Coast, na Austrália, Tucker (Jai Courtney) esconde um segredo macabro: sob o disfarce de guia turístico de mergulhos em gaiola, ele sequestra visitantes e os oferece como “refeição” para tubarões em alto-mar, registrando tudo com obsessiva devoção. Sua mais nova vítima é Zephyr (Hassie Harrison), uma jovem americana que viajou em busca de ondas, mas encontra o terror nas mãos do psicopata. Presa em um barco cercado por predadores, ela precisa lutar pela sobrevivência enquanto conta apenas com a suspeita de Moses (Josh Heuston), um local que percebe seu desaparecimento.

Diamond Films/Reprodução

Por dois terços da projeção, Byrne entrega um suspense sufocante e visceral. O isolamento do barco em mar aberto, a constante presença dos tubarões e a imprevisibilidade de Tucker criam uma atmosfera claustrofóbica e angustiante. A câmera insiste em longos closes que intensificam o sofrimento das vítimas, enquanto a trilha sonora aumenta a sensação de aprisionamento e impotência. É um jogo psicológico eficaz, onde o espectador se torna cúmplice involuntário da tortura.

Hassie Harrison surpreende ao transformar Zephyr em uma protagonista resiliente: vulnerável, mas nunca submissa. Sua química de ódio e sobrevivência com Jai Courtney sustenta o filme. Courtney, por sua vez, abraça com prazer o estereótipo de psicopata carismático, entregando trejeitos exagerados e frases bregas que beiram o caricatural, mas não deixam de incomodar pelo sadismo latente.

Diamond Films/Reprodução

O grande problema de Animais Perigosos surge na reta final. Se o primeiro ato prometia um thriller intenso, a narrativa se perde em excessos e escolhas que beiram o absurdo. Reflexões superficiais sobre tubarões, filosofias baratas de Tucker e momentos gratuitos de violência retiram o impacto conquistado no início. O roteiro parece estender sequências apenas para preencher a duração mínima, diluindo a tensão e transformando a experiência em uma sucessão de cenas chocantes, mas pouco coesas.

Ainda assim, é impossível negar os méritos técnicos. O orçamento de apenas US$ 2 milhões foi usado com criatividade: os efeitos práticos dos tubarões são convincentes, as tomadas aéreas da costa australiana são belíssimas e a fotografia equilibra bem o contraste entre paraíso e pesadelo. Byrne, conhecido por The Loved Ones (2009), demonstra talento em criar atmosfera — mesmo que falhe em manter a consistência dramática.

Diamond Films/Reprodução

Animais Perigosos não reinventa o cinema de tubarão, mas consegue entregar um suspense eficiente, especialmente em seu primeiro ato, onde a tensão e a claustrofobia funcionam muito bem. Ao apostar em exageros narrativos e diálogos rasos na reta final, o filme perde parte do impacto que poderia consolidá-lo como destaque do gênero. Ainda assim, entre sangue, tubarões realistas e a assustadora performance de Jai Courtney, fica uma reflexão incômoda: no fim das contas, quem realmente merece o título de “animal perigoso” é o próprio ser humano.

Critica - Animais Perigosos
Regular 2.5
Nota Cinesia 2.5 de 5
Share This Article