Poucos autores conseguem transitar entre tantos gêneros e ainda manter uma assinatura tão inconfundível quanto Stephen King. Do horror psicológico de O Iluminado ao épico de amadurecimento em Conta Comigo, suas histórias atravessam décadas e continuam a ser revisitadas pelo cinema e pela televisão. Nem todas as adaptações, é verdade, atingem o peso literário do autor, mas de tempos em tempos surge um projeto que lembra por que King é considerado um mestre na criação de mundos perturbadores e profundamente humanos. Em 2025, esse papel cabe a A Longa Marcha: Caminhe ou Morra, baseado no livro lançado sob o pseudônimo Richard Bachman, que encontra nas mãos de Francis Lawrence uma adaptação sombria, inquietante e surpreendentemente atual.
Em um futuro distópico marcado pela devastação da Grande Guerra, os Estados Unidos buscam reconstruir sua identidade nacional à base de métodos brutais. Entre eles, está a Longa Marcha, uma competição anual que convoca 50 jovens garotos para um desafio de sobrevivência: caminhar sem descanso a uma velocidade mínima de 5 km/h. Quem diminuir o ritmo ou parar recebe advertências — e na terceira, é executado pelos soldados que vigiam o percurso. Apenas um sobrevive. E ao vencedor, qualquer desejo pode ser realizado.

É nesse cenário que acompanhamos Ray Garrity (Cooper Hoffman), um jovem dividido entre a obediência e a rebeldia, que decide se inscrever contra a vontade da mãe. Ao longo da jornada, ele cruza destinos com companheiros de infortúnio: o espirituoso Peter McVries (David Jonsson), o enigmático Billy Stebbins (Garrett Wareing), o imprevisível Gary Barkovitch (Charlie Plummer) e o carismático Arthur Baker (Tut Nyuot). Juntos, esses rapazes formam alianças frágeis e rivalidades intensas, enquanto a linha entre resistência e rendição se dissolve a cada passo.
Francis Lawrence, já veterano das distopias com a franquia Jogos Vorazes, imprime aqui uma atmosfera paradoxal: ao mesmo tempo épica e claustrofóbica. As vastas estradas abertas, filmadas com planos superssaturados e cores quentes, paradoxalmente aprisionam os personagens — como se o horizonte infinito fosse apenas mais uma parede invisível.

O roteiro de JT Mollner acerta ao adaptar a narrativa repetitiva e exaustiva do romance em um ritmo dramático envolvente, explorando as interações entre os jovens como combustível emocional e trazendo à superfície metáforas sobre regimes autoritários, a manipulação de massas pelo espetáculo e a condição humana em cenários de opressão. Algumas dessas analogias podem soar literais demais, mas, no geral, o texto encontra força na química do elenco e na cadência dramática dos diálogos. Em vez de heróis e vilões, temos garotos que oscilam entre coragem, medo, amizade e egoísmo, todos presos em um espetáculo mórbido de entretenimento estatal.
As atuações sustentam o peso da obra. Cooper Hoffman entrega um Garrity vulnerável, mas em constante evolução, fugindo da típica jornada do “escolhido” e abraçando a condição de sobrevivente marcado pelo trauma. David Jonsson rouba a cena como Peter McVries, trazendo o alívio emocional necessário e equilibrando o desespero com lampejos de esperança. O elenco de apoio também se destaca: Plummer, Wareing e Nyuot encontram nuances em personagens que poderiam ser apenas arquétipos descartáveis.

Um destaque especial vai para Mark Hamill, no papel do Major — a figura autoritária que comanda a Marcha com um misto de paternalismo doentio e frieza militar. Sua presença, ainda que contida, é capaz de incutir mais medo do que os tiros dos soldados.
Tecnicamente, Lawrence conduz o filme com maestria: a fotografia contrasta a luz ofuscante do dia com a escuridão sufocante da noite; a trilha sonora utiliza batidas repetitivas, quase como passos cronometrados, reforçando a ideia de inevitabilidade.

Em determinados momentos, a repetição de diálogos e algumas sequências de marcha prolongadas podem testar a paciência do espectador, ainda que façam parte da proposta imersiva.
A Longa Marcha: Caminhe ou Morra não é apenas mais uma adaptação de Stephen King. É uma experiência visceral que desafia tanto os personagens quanto o público a encarar os limites da resistência física e psicológica, ao mesmo tempo em que denuncia a perversidade de sistemas que transformam sofrimento em entretenimento.
Com direção segura, atuações poderosas e uma atmosfera sufocante, o filme se estabelece como uma das melhores adaptações de King nos últimos anos — um lembrete perturbador de que o verdadeiro horror pode estar muito mais próximo da realidade do que imaginamos.


