3 Obás de Xangô | Documentário retrata a amizade de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé

Priscila Dórea
6 Min de Leitura
Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé | Divulgação
4.5 Excelente
Critica - Os 3 Obás de Xangô

O documentário 3 Obás de Xangô gira em torno da amizade incondicional de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, artistas que foram os maiores responsáveis pela criação de um imaginário de baianidade que persiste até os dias de hoje – através dos livros, músicas e artes. Os três defendiam que a força de suas obras residia em documentar o que viam nas ruas: a resiliência do povo do candomblé, o poder das mulheres, a onipresença do mar. Os livros de Jorge, as canções de Caymmi, e as pinturas e esculturas de Carybé consolidaram ‘um modo de estar no mundo’ dos baianos e influenciaram as gerações de artistas que vieram a partir deles.

Dirigido por Sérgio Machado (Cidade Baixa, 2005), o documentário conta com maestria a história da amizade entre Jorge (Obá Arolu), Dorival (Obá Onikoyi) e Carybé (Obá Onâ Xokum) – nascido Hector Julio Páride Bernabó -, enquanto mostra a Bahia através dos olhos deles e seus trabalhos. Com narração do ator Lázaro Ramos, o filme recupera em preciosas imagens de arquivo e depoimentos a história dessa amizade e, consequentemente, a história da Bahia através dos olhos e façanhas desses três obás de Xangô.

Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé | Divulgação

Obá de Xangô é um título honorífico do candomblé criado em 1936 por Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá. Ao todo, são escolhidos 12 obás, um título nigeriano concedido aos amigos e protetores do terreiro. Seis que são a mãe direita: Obá Aré, Obá Cancanfô, Obá Odofim, Obá Arolu, Obá Telá e Obá Abiodun. E seis que são a mão esquerda: Obá Onicoi, Obá Olubom, Obá Onanxocum, Obá Elerim, Obá Arexá e Obá Xorum. Todos protegem o terreiro perante a sociedade.

O maior trunfo da produção foi ter conseguido unir com grande fluidez todas as entrevistas, filmes, fotos e cartas – além da produção de cada um dos três artistas -, que são reunidas tal qual o quebra-cabeça que, montado, nos mostra a resiliência do povo de candomblé da Bahia, os caminhos que levaram os três a se reunirem e serem protetores dessa religião e, principalmente, a força da amizade deles.

Carybé, Mãe Stella de Oxóssi, Zélia Gattai e Jorge Amado | Divulgação

Enquanto reconhecem que suas obras são, em suma, frutos do que observavam e viviam na Bahia – sobretudo em Salvador -, nos é apresentado a força dessa amizade, o que é um dos pontos mais interessantes da produção. Há todo um imaginário em torno de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, principalmente pelo rico legado que eles deixaram, então poder assistir essa interação espontânea entre eles humaniza os artistas por trás das grandes obras. E é muito divertido também.

Jorge Amado, por exemplo, que sempre foi o mais desbocado dos três, em dado momento do documentário conta sobre um comentário feito por um critico, que afirmava que ele “não passava de um romancista de putas e vagabundos” e então ele completa: “Nunca me fizeram um elogio maior”. Então tem os puxões de orelha de Caymmi e as enrascadas que Carybé cai por causa dos amigos. Fica nítido também o quanto eles admiravam o trabalho um do outro e há trechos em que se aventuram naquilo que o amigo era mestre. Caymmi, por exemplo, adorava pintar.

E para além de toda mostra da amizade deles, a produção evoca questões relacionadas ao próprio candomblé, como a força feminina que impera, o papel masculino dentro da religião – e os percalços que figuras como Joãozinho da Goméia passaram  –, o preconceito ainda mais persistente naquela época, o papel deles como obás nesse contexto e como o candomblé e muitos dos seus aspectos, tornam a Bahia o que ela é.

Acima de tudo, essa é uma produção que mostra como essas importantes figuras tiveram papéis distintos na história de ume estado e de uma religião, para além do que produziram. A história é contada a partir da trajetória deles, mas não fica restrito a participação dos três. Muitas outras pessoas aparecem no documentário, alguns já encantados ancestrais, como Camafeu de Oxóssi, Mãe Stella de Oxóssi, Dona Toninha e Zélia Gattai; e outros vivos, como Muniz Sodré, Goli Guerreiro, Itamar Vieira jr., Gilberto Gil, João Jorge, Maria Lúcia de Santana Neves, entre muitos outros.

Jorge Amado, Carybé e Camafeu de Oxóssi | Divulgação

O documentário 3 Obás de Xangô é uma produção terna que mistura passado, presente e memória. Enquanto conta a história e trajetória de três grandes e importantes artistas, a produção nos mostra pedaços da história de Salvador, da Bahia e do candomblé, seus percalços e belezas. É um documentário realmente único, de certa forma.

Critica - Os 3 Obás de Xangô
Excelente 4.5
Nota Cinesia 4.5 de 5
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Jornalista e potterhead para toda eternidade, tem um amor nada secreto por mangás e picos de felicidade com livros em terceira pessoa. Além de colaboradora no Cinesia Geek, é repórter do Grupo A Tarde.