Depois de uma espera de 2 anos(algo fora do padrão das séries originais da Netflix) eis que Sense8 retorna às telinhas.

Mais uma vez destacando o pano de fundo da diversidade, do respeito e da aceitação, Sense8 continua de onde a primeira temporada parou, acompanhando a jornada individual de Will (Brian J. Smith), Riley (Tuppence Middleton), Lito (Miguel Ángel Silvestre), Kala (Tina Desai), Wolfgang (Max Riemelt), Sun (Doona Bae), Nomi (Jamie Clayton) e Capheus (Toby Onwumere), bem como suas incríveis cenas conjuntas, muito bem coreografadas.

Um dos grandes fatores para o sucesso e ao mesmo tempo afastamento do publico para a série, está justamente  como desafia nossa definição para ela. As irmãs Wachowski e J. Michael Straczynski criam em seus personagens um tipo de versões idealizadas e, que carregam um quê de estereótipos de uma grande parcela da humanidade. O objetivo não é criar algo realista ou que possa ser simplesmente classificado de ficção científica e sim uma espécie de universo próprio em que os protagonistas são aquilo que, em um mundo ideal, gostaríamos que eles fossem.Com isso muitos que queriam algo mais sci-fi acabaram não entrando na vibe dela, em compensação, em seu lugar, recebemos algo inusitado, diferente e que encanta.

O Especial de Natal na prática, funciona como o primeiro episódio da 2ª temporada, a série volta para abordar as vidas mudadas dos oito protagonistas em um mundo conectado por suas mentes privilegiadas, depois que seu grupo “nasce” de Angelica que, ato contínuo, comete suicídio. Sem a necessidade de apresentar os personagens e de construir sua histórias do zero, as Wachowski e Straczynski conseguem introduzir e trabalhar melhor  a ficção e a ciência da série, abordando a origem evolutiva dos Sensates, novos grupos que existem escondidos (ou não) pelo mundo e, claro, o sinistro Sussurros (Whispers) e sua caça ao grupo de Will.

Com isso em comparação ao seu primeiro ano, logo de inicio, a história principal é muito bem impulsionada por roteiros que conseguem criar momentos genuinamente tensos, com diversas reviravoltas inesperadas que aprofundam e por vezes confundem a trama. Claro que o tom caracteristicamente novelistico da primeira ainda se faz presente, mas eles se fazem bem colocados e criando uma expansão natural para o ritmo da historia.

Os protagonistas visitam uns aos outros em diferentes episódios, pedem ajuda, conselhos e replicam uma fórmula que funcionara anteriormente. Inclusive, apostando no repetitivo  método das cenas com músicas das paradas de sucesso. Ainda assim, certas relações entre os sensates não parecem tão naturais nas telas, como entre Kala e Will, por exemplo. Por outro lado, a dinâmica entre Sun e Lito volta a marcar presença em divertidas sequências – que lembram a cena da TPM da primeira temporada.

Will Gorski é o ponto focal de boa parte da 2ª temporada, assim como fora da anterior, já que ele, dentre outras funções, é o catalisador das descobertas aqui em razão de sua conexão inadvertida com Sussurros. Vivendo escondido com Riley e com heroína na veia para suprimir suas habilidades e, por consequência, a possibilidade do vilão achá-los, Will é quem começa a abrir as portas para o contra-ataque de seu grupo, normalmente com a valiosa ajuda de Nomi e de sua namorada Neets. Já Sun, um dos principais destaques da primeira temporada, é esquecida em certos episódios (aparecendo só para salvar o dia com suas habilidades de artes marciais). Felizmente, Doona Bae protagoniza importantes momentos nos últimos capítulos.

Mesmo assim, um dos grandes méritos da temporada é dar mais espaço para os coadjuvantes. Daniela (Eréndira Ibarra) e Amanita (Freema Agyeman) brilham em seus arcos, e até mesmo o parceiro de Will, Diego (Ness Bautista) volta a dar o ar da graça em importantes cenas. Entretanto, o principal destaque é Bug (Michael X. Sommers), o hacker amigo de Nomi. Eles geram bons momentos de humor, sem deixar de contribuir para o desenrolar da trama.

Se liguem também nas participações de Sylvester McCoy, o Radagast da trilogia O Hobbit, e, claro, Bruno Fagundes, o filho de Antonio Fagundes, que marca presença em uma cena no episódio da Parada Gay. Aliás, a sequência passada em São Paulo, apesar de breve, rende bons momentos de diversão e um emocionante discurso de Lito.

Alias os discursos de aceitação e respeito dessa temporada emocionam em vários episódios, mostrando umas das importâncias que o seriado tem em tocar em um tema cada mais atual na sociedade.

Outro destaque é O Sussurros de Terrence Mann. Misterioso até não poder mais, vilanesco como se estivesse em um filme de James Bond e inteligente como Hannibal Lecter, o homem é o que se espera de um antagonista clássico e, na 2ª temporada, ele ganha um bom destaque que é espertamente usado para lidar com as disputas políticas internas na complexa empresa em que trabalha.

A 2ª temporada de Sense8 representa um avanço em relação à primeira, com maior equilíbrio entre o lado pessoal de cada personagem e a trama guarda-chuva de viés sci-fi. Ela vem repleta de muita tensão, humor, referências cinematográficas e, é claro, romance, além de rapidamente colocar seu espectador ao ritmo normal da história, tornando fácil maratoná-la  em relação a primeira.Agora o que nos resta é aguardar que a Netflix não demore mais dois anos para lançar a próxima temporada.