Se for para definir o livro Ruby de Cynthia Bond em uma palavra, essa palavra seria: difícil.

É uma história difícil de ler, difícil de continuar e difícil de entender (entender do ponto de vista humano, de como as pessoas são capazes de ações tão absurdas). É um livro de ficção, porém durante muito tempo a autora trabalhou em centros de apoio para adolescentes – muitos deles LGBT – que sofriam todo e qualquer tipo de abuso desde muito jovens, e ela própria afirmou ter se baseado na vida dessas pessoas para escrever a história de Ruby. Apenas pensem nisso enquanto estiverem lendo.

Vocês lembram do filme Preciosa – Uma História de Esperança lançado em 2009? Lembram o quanto de coisas ruins e injustiças aconteceram com a jovem Precious? Pois bem, agora imaginem ler uma história onde quase todos os personagens, até mesmo os vilões, sofrem no Precious style… A história do livro Ruby é exatamente assim. Com muitas Precious.

O livro se divide em três partes: Osso da sorte, Duas moedinhas e Revelações. A narrativa em terceira pessoa além de revezar entre vários personagens (focando mais em Ruby e Ephram), também vai e volta no tempo, viajando do presente para o passado, e então para ainda mais no passado. De modo que você só encaixa todas as peças no fim.

Essa história foi uma total surpresa, considerei o caso mais critico de “a sinopse não me avisou que eu leria uma coisa dessas” de toda minha vida. É fácil você odiar muitas pessoas em Ruby – mas dificilmente a Ruby -, não apenas as puramente más, mas também as supostamente boas e que são extremamente hipócritas ao mesmo tempo.

Cynthia Bond não se contém em descrever inúmeras cenas de abuso físico, psicológico e sexual. Não exatamente considerei um exagero a quantidade de cenas do gênero, mas ainda são muitas, e extremamente absurdas e cruéis, me fazendo fechar o livro para respirar diversas vezes.

Você tem que estar preparado e ter estômago para passar pelas páginas.

Leve esse aviso seriamente.

Várias dessas situações de abuso estão intrinsecamente ligadas à cor dos personagens: o livro se passa quase todo em Liberty – uma cidade de negros – algumas décadas depois da guerra civil nos EUA, época em que o país ainda era extremamente segregado (com banheiros, hospitais e etc de uso separado para brancos e negros), no auge da Ku Klux Klan. E o racismo, por sua vez, também se liga fortemente com o machismo, de modo que você realmente tem poucos momentos de respiração fácil durante toda a história.

Outra coisa que aparece muito é a religiosidade, tanto na luta Cristianismo VS Paganismo, quanto ambas contra e a favor de Ruby. Bond faz muito bom uso de uma ponta sutil da literatura fantástica na história, tornando real a fé e a magia que permeiam ambas as vertentes religiosas, não apenas para Ruby e o povo de Liberty, mas também para os leitores.

Ruby Bell é como um passarinho que não sabe se é grande ou pequeno demais para lutar contra a própria vida, ao passo que Ephram Jennings é a mais gentil das almas. Célia Jennings por sua vez é um dos seres mais hipócritas e condescendentes de toda a história. Já o Reverendo é apenas absolutamente cruel, assim como Peter, Srta. Barbara e tantos outros que vão surgindo. Algumas outras boas pessoas vão aparecendo também, pensamento positivo.

No entanto, essa crueldade não torna Ruby um livro ruim, só dolorosamente real. A narrativa de Cynthia Bond é emocional no ponto certo, ela descreve as situações de forma que você quase consegue imaginar e sentir. Se existe algo no livro que talvez incomode algumas pessoas, esse algo seriam os longos parágrafos contando e contando sobre vida de algum dos personagens. Incomoda apenas pelo tamanho e falta de dialogo nessas partes, o que muitas vezes torna a leitura cansativa, mas, ao menos no meu caso, a curiosidade sempre acabava vencendo o cansaço.

O único ponto negativo real que tenho sobre a história é o final: não, ela não foi ruim, porém achei… Rápido de mais, corrido de uma forma que não sei explicar bem, porque os parágrafos longos ainda estavam lá, mas muitas das resoluções vieram de uma só vez, e isso fez tudo parecer muito apressado enquanto o fim se aproximava.

Ruby passeia por inúmeros temas: sexualidade, racismo, machismo, religião, abuso e por ai vai. Você vai sofrer, vai querer gritar e algumas vezes vai querer desistir de continuar a ler, já um pouco mais descrente da bondade do ser humano. É uma história assustadoramente (e infelizmente) atemporal. Mas você vai sorrir um pouco, com certeza na página 243.