O lançamento da Editora Panini e Planet Manga é uma surpresa para os olhos por vários motivos. Em primeiro lugar pela falta de seinen (mangás voltados para o público masculino) no mercado nacional, ainda mais um tão maduro. Em segundo, por Hiroya Oku ser o mangaká por trás desse material, sendo que aqui no Brasil ele é conhecido por “Gantz“. Por fim, o terceiro e último motivo é a capa ter uma apresentação diferente da que os otakus brasileiros estão acostumados, um pouco mais brilhante e com efeitos holográficos que atraem mesmo com uma arte simples. “Inuyashiki” foi lançado originalmente em 2014, tendo sido finalizado em 10 volumes pela Kodansha, entretanto não foi um sucesso imediato e suas adaptações foram produzidas este ano, com um anime lançado em outubro e um live-action para 2018. A edição também conta com páginas coloridas e arte na contra-capa.

Ichiro Inuyashiki é um de nossos protagonistas, sendo diferente do esperado por se tratar de um homem de 58 anos, visto como idoso pela sociedade que pouco se importa com os valores que alguém como ele carrega. Com sua família não é tão diferente, pois a mulher e seus dois filhos cobram cada vez mais dinheiro, conforto e sem saber que ele está definhando a cada dia de trabalho para conseguir condições melhores. Após descobrir uma doença terminal, Ichiro percebe que não tem mais motivos para viver. Sua filha prefere dizer que ele é seu avô, seu filho nunca se inspirou na sua coragem e até mesmo sua mulher diz que ele não faz nada direito. O fim é certo… ou talvez seja um novo começo?

Após um incidente no parque envolvendo não só Ichiro, mas também o jovem Hiro Shishigami, entenderemos que forças superiores estão agindo e isso não é de todo ruim, pois eles ganharam um “dom dos céus”. Por se tratar do gênero ficção científica, o início de drama se transforma para dar espaço a uma nova realidade. A surpresa é tão grande que o desconforto inicial por vermos momentos difíceis vividos por nossos protagonistas termina. O interessante também está no que cada um faz com seus poderes, havendo uma certeza de que essas diferenças sempre irão existir: A juventude imatura contra a sabedoria desvalorizada; o egoísmo contra o altruísmo e assim por diante. Sem faltar com traços detalhados que se aproximam do fotorrealismo, a ilustração de Hiroya Oku continua causando sensações diversas a cada página, sendo que nem todas são confortáveis.

O mangá provoca uma série de reações, sendo original o bastante para quem busca um seinen cheio de surpresas sci-fi e poucos personagens com espaço para serem aprofundados a cada capítulo. Os acontecimentos são o que garantem um dinamismo para a trama. Alguns personagens merecem mais destaque, a exemplo do cachorro do Ichiro, Hanaka e o mendigo vítima do ataque de jovens que os chamam de “baratas”, mostrando que os personagens são reais e sofrem o mesmo que sofremos e/ou presenciamos diariamente. A fantasia e a realidade se misturam e se enfrentam bem nessa mirabolante trama, que quando parece ter chegado ao limite ela se expande. Até mesmo a ideia de bem e mal serve como forma de criticar nossa realidade hostil e deturpada, pois no aspecto desrespeito o Japão é próximo do Brasil, mas se torna ainda pior por ser um local com mais idosos, o grande alvo desses atos. Com o drama podemos lembrar da série “Breaking Bad” com muita facilidade.

Um dos destaques está na referência que o autor usa ao colocar o personagem Ando sendo fã de “Gantz”, sua própria obra lançada entre 2000 e 2013. Também teremos noção do quão nerd nosso mangaká é ao brincar com “O Hobbit” de Tolkien… ou seja, não se pode esperar menos do responsável pela criação da personagem Shura do jogo de arcade da Namco, “Soul Calibur IV“. Tanto talento merece o investimento em colecionar o total de 10 edições (no Brasil está na 2ª edição). Esse mangá é criativo e a prova de que está até hoje recolhendo os frutos desse esforço, ele foi selecionado pelo 18º festival da Japan Media Arts e está concorrendo no 44º festival anual de história em quadrinhos internacional de Angoulême, que ocorrerá esse ano. Só uma coisa é certa, Inuyashiki é nosso herói “humano”.