Depois de dar duas oficinas de HQs na Área Open do evento e apresentar seus quadrinhos Contos dos Orixás no palco principal da Campus Party Bahia, em agosto, Hugo Canuto, conversou com o Cinesia Geek. Na entrevista, o quadrinista baiano fala sobre sua inspiração para decidir abordar a cultura religiosa afro-brasileira em sua arte. Além disso, falou da sua experiência nas oficinas de quadrinhos e da expectativa para o lançamento da obra, em dezembro deste ano.

Você deu uma oficina de HQs hoje. Como foi a experiência?

Eu sinto a necessidade [de oficinas] em Salvador. As pessoas querem entender como é, como se faz [uma HQ]. Então isso passar adiante é muito importante. Espero que, no futuro, não seja só eu, tenham mais artistas. Temos uma sociedade cheia de história e isso tem que entrar nas formas de arte. [A oficina] foi muito diversa, com crianças de 8 anos até jovens de 20 e poucos. O objetivo é incentivar a soltar a imaginação, a não ter vergonha. Vi muitas ideias que podem amadurecer e se tornar uma HQ ou um livro. 

Quais são suas influências baianas nas HQs?

Da Bahia tem um grande amigo meu, Flávio Luís, que tem 20 anos na estrada. Mas aqui não enxergo muitos expoentes… Tem o Luís Augusto, mas é para um público mais jovem, com outra temática. Para o que eu faço, que é trazer a mitologia do candomblé para os quadrinhos, minhas referencias do Brasil são os artistas que, como autores, tem estilo próprio e criam narrativas próprias. É interessante ver que no país têm surgido pessoas que não perdem em nada para o que está sendo feito lá fora.

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Ao escolher esse tema para seus quadrinhos, você procurou representar não só a cultura do candomblé, mas a pessoa negra?

Sim. Nós estamos falando de uma cultura e de um povo que é responsável  da herança e da identidade do pais. E, apesar disso, temos uma estrutura racista no país, que não consegue valorizar este contexto histórico. É uma ação quase esquizofrênica com a própria cultura. Nós procuramos representar os negros como deuses, guerreiros, sacerdotes –  como protagonistas de sua história. Sempre detestei ver o negro representado apenas em posições inferiores. Por isso trazer os orixás, as figuras religiosas para dentro do quadrinho é empoderar o jovem. Nas nossas visitas a terreiros [de candomblé], eu via crianças de 7 anos pegando nossa arte e dizendo: “eu quero isso”. Isso é o que faz o trabalho valer a pena.

A decisão de criar um quadrinho independente foi proposital? Ou não houve interesse do mercado?

Tivemos muitas ofertas de editoras, mas nossa preocupação era o nível de interferência no trabalho. E como foi a primeira vez que eu estava fazendo [o quadrinho], eu queria saber até onde iria levar esse trabalho. É importante que um trabalho como esse tenha uma voz. O erros e acertos serão meus, e não causados por alguém que disse “tire isso, coloque aquilo para vender mais”. Não queremos fazer um trabalho apelativo para vendas. Se você observar, muitas histórias mascaram a falta de enredo com violência para vender. Não é o que eu quero fazer.

 

O lançamento vai ser feito com algum evento aqui na Bahia?

Queremos fazer um lançamento com o público e vamos fazer isso em alguma instituição ligada ao candomblé. O trabalho não é sobre a religião em si, é sobre os orixás, mas tudo começou aqui. Então é importante para nós lançarmos a parceira com as instituições religiosas. Além disso, estamos esperando o desenrolar, mas esperamos ter pelos menos dois lançamentos, um “laico” e outro “religioso”.

 

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Você já notou se Contos dos Orixás apresentou as HQs para um público que não as conhecia?

Quando esse quadrinho começou, ele juntou duas pontas: quem era fã de HQs e sempre pensou “por que não há representação da nossa cultura?” e quem é das religiões de matrizes africanas que nunca se sentiu representado nos quadrinhos. Algumas pessoas apoiaram o projeto pela conexão com os orixás e algumas pelo fato de ser um quadrinho. Com isso, conseguimos uma diversidade de publico, e a cada vez que trabalhamos mais, conseguimos mais. Nós mostramos heróis negros, mas em nenhum momento entramos no esteriótipo. Acho que por isso que crescemos assim. Um dia desses estava em São Paulo e um cara tinha como papel de parede do celular o Xangô de nossas artes. Quando comentei, ele falou: “ah, então é você?”. Ele nem sabia quem eu era, tinha aquela arte por que gostou. O que está na frente é o projeto, e não quem faz.