Denis Villeneuve é um dos mais talentosos cineastas da nova geração e sua filmografia comprova cada vez mais isso.O canadense continua sua navegação por diferentes gêneros cinematográficos após abordar intolerância religiosa em Incêndios, serial killers em Os Suspeitos, a dualidade da mente humana em O Homem Duplicado e cartéis mexicanos em Sicario: Terra de Ninguém. Nada mais apropriado para o homem que ressuscitará Blade Runner nos cinemas do que se aventurar numa ficção científica. “A Chegada” é, ao menos até agora, um dos melhores filmes do ano, com uma originalidade pulsante, uma técnica irrepreensível e uma inteligência admirável. Cabe o alerta desde já: é uma obra que provoca reflexão, uma película complexa e de difícil compreensão. Não serve para todos os públicos, portanto.

Baseado no conto “Story of Your Life” de Ted Chiang, a trama começa quando a Dra. Louise Banks (Amy Adams) é chamada por militares para auxiliar na compreensão da linguagem dos alienígenas que invadem o planeta, com o objetivo de, com a ajuda do cientista Ian (Jeremy Renner), descobrir o que eles querem aqui. Dizer mais do que isso do plot resultará em spoilers indesejáveis que afetam a experiência nesse caso específico.

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O longa-metragem de Villeneuve é uma ficção científica. Só que ele não é apenas isto.A Chegada prefere se concentrar muito mais no fator humano de sua história, então quem procura explosões, batalhas intergalácticas ou qualquer outro elemento blockbuster certamente vai encontrar apenas tédio e lentidão aqui, definitivamente não sendo um filme que agradará a todos. É uma narrativa que toma o tempo necessário e se vê muito interessada nas coisas pequenas, mantendo seu foco sobre a importância da comunicação e sempre trazendo à tona esse elemento ao longo da trama, desde as dezenas de telas de computadores que trazem pessoas de diferentes países trocando informações – algo tão bem estabelecido pela mise em scène, que sentimos uma leve tristeza quando todas elas se desligam em certo ponto – até a referência histórica de que primeiros encontros entre dois povos geralmente culminam no massacre do menos desenvolvido.

Comunicação e linguagem: é aqui que se inicia a interação social. Como se não bastasse o ponto de partida filosófico, o roteirista Eric Heisserer toma emprestadas noções da física moderna para prosseguir no texto. Mais uma vez, melhor não desenvolver a ideia, evitando spoilers. O script é bastante complicado e exige que o espectador tenha a disposição de pensar para poder entender a obra – e quiçá repensar a própria realidade. Mais que um subtexto intelectual, a narrativa se desenvolve de forma genial, inusitada e perspicaz. Engenhoso, Heisserer não deixa pontas soltas e dá credibilidade ao roteiro ao criar uma atmosfera bem realista.

Villeneuve atinge seu auge (até agora) com esse longa. Se esquivando das convenções da ficção científica, o cineasta inova tanto no básico (força da gravidade) quanto no avançado (a arte visual e sonora pensada para representar os ETs). Panorâmicas inusitadas, establishing shots em meio a uma bela fotografia, planos longos… o arsenal de Villeneuve é de qualidade e ele não deixa barato. A primeira interação de Louise com os aliens é uma sequência sensacional e impactante. O terceiro ato é um pouco mais veloz, todavia, não interfere no conjunto.

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Além disso tudo, o filme ainda conta com um elenco afiado, onde se destaca Amy Adams. A composição da sua personagem foi feita com bastante delicadeza e o resultado, na telona, é uma atuação inspiradíssima. Jeremy Renner e Forest Whitaker, este último na pele do coronel que recruta os dois acadêmicos, estão bem, contudo, é a atriz que brilha de verdade. Se nada de anormal acontecer, tenho a sensação de que ela pode começar a  pensar no vestido para disputar o Oscar pela sexta vez na carreira.

A Chegada é uma obra prima. É o tipo de filme que marca época por renovar o potencial do cinema. Não é uma simples história sobre uma possível invasão alienígena, mas sim uma história de ficção científica complexa e desafiadora, sendo capaz de transmitir uma poderosa e atemporal mensagem sobre a raça humana, ressaltando a necessidade da comunicação com tudo e com todos. Também é a melhor expressão visual sobre o Amor fati de Friedrich Nietzsche. Villeneuve apresenta a melhor ficção científica dos últimos tempos e eleva ainda mais o nível de qualidade esperado de Blade Runner 2049.