Uma discussão que permeia a humanidade já algum tempo, principalmente no ramo da psicologia, é: porque temos fascínio pelo mórbido? Porque quando ocorre um acidente, ou alguma tragédia não conseguimos resistir à tentação de dar uma olhadinha nas imagens? Mesmo que a sensação não seja nem um pouco prazerosa e que, muitas vezes, no sentimos culpados depois? Alguns cientistas dizem que quando passamos por uma situação de perigo, o nosso cérebro libera uma substância para nos ajudar a fugir e quando conseguimos fugir ele libera uma outra substancia, como se fosse uma “substância da recompensa”, para a gente poder gostar de fugir. O interessante é que mesmo quando a situação de perigo é com outra pessoa, nós conseguimos visualizar essa situação, o cérebro libera essa substância mesmo assim, talvez isso revele o motivo da maioria de nós sentir esse fascínio pelo mórbido.

O motivo exato nós ainda não sabemos, mas provavelmente seja esse fascínio que faz obras como Meu Amigo Dahmer, chamar nossa atenção. Meu Amigo Dahmer tem roteiro e artes de Jeff Backderf, que foi por muitos anos colega de classe de Jeffrey Dahmer, aquele que anos depois viria se tornar o famoso serial killer, conhecido como: O Canibal de Milwalkee, que assassinou pelo menos 17 rapazes e cometeu necrofilia e canibalismo com algum deles.

Jeff Backderf, narra alguns fatos que ocorreram no colegial e também da vida de Dahmer, na tentativa de tentar entender como um amigo de escola acabou se tornando um dos mais temidos serial killers do século. A decisão narrativa de contar essa história através de uma HQ e não de um livro, além de acertada se mostra bastante interessante. De certa forma isso aproxima mais a história do leitor e ver esses “personagens” e seus cenários causam uma incrível sensação de imersão nessa trama, apesar de arte pouco inspirada de Backderf.

Aliás, a arte é único ponto que deixa um pouco a desejar nesta obra. Acredito que nós teríamos uma melhor experiência visual e de mais impacto, se a arte pertencesse a um artista que não tivesse o traço tão “cartunesco” (sei que a palavra não existe, daí as aspas). Como estamos falando da construção, do surgimento de um assassino de série, acredito, que os semblantes e expressões faciais são deveras importante nessa história. O autor possui uma carência para desenhar rostos bem relevante. Por isso, apesar da arte da obra cumprir seu papel, temo que ela tenha tirado um pouco do seu potencial. Ainda assim, Backderf possui algumas soluções visuais muito interessantes. Como na imagem abaixo, onde após sofrer um bullying, vemos Dahmer se deparar entre dois caminhos distintos e com a sua sombra, fazendo um paralelo com seu interior psicopata, em foco.

“Jeffrey Dahmer, logo após sofrer bullying – Meu Amigo Dahmer, pagina 27, Darkside Grafic Novel”

Um acerto muito grande autor, foi o de não mostrar nenhum dos crimes de Dahmer. Isso tiraria do foco da história que ele deseja contar, já que ela não retrata isso. Apesar do primeiro assassinato do serial ter ocorrido em uma das épocas em que a história se passa e do autor ter deixado bem evidente quando ela aconteceu (imagem abaixo) o crime em si não é mostrado. Outro fato interessante, é que após assumir os bullyings e as discriminações que o autor e seus amigos faziam com o Dahmer, ele tenta se justificar dizendo que eles eram jovens ou que só estavam tentando preencher o tempo em uma cidadezinha parada. Ora Jeff Backderf, o fato de ter pouca idade e morar numa cidade pacata não justifica ser escroto, nem babaca.

“Steven Hicks, a primeira vítima de Jeffrey Dahmer – Meu Amigo Dahmer, páginas 174 e 175, Darkside Graphic Novel”

Outro ponto interessante que o autor aborda em Meu Amigo Dahmer, é a negligencia que os adultos tiveram em relação de Jeffrey. É surreal pensar que um adolescente que iria para a escola todos os dias embriagado passaria despercebido. Em diversas entrevistas após os crimes de Dahmer virem à tona, tanto seu pai, como a sua mãe disseram que o filho nunca havia apresentado nenhum comportamento anormal, embora eles, muito provavelmente, nem prestassem a atenção no filho.

Elogiar o acabamento estético que a Darkside dar as suas publicações é chover no molhado, mais ainda assim precisamos faze-lo. A capa dura, presente em todas as publicações da editora, e a contracapa são belíssimas, trazendo rascunhos do autor. Além disso o papel em que o conteúdo foi impresso, possui uma incrível gramatura, que dificulta muito que a HQ se danifique. Após nos presentear com livros de uma qualidade absurda, a editora agora começa com o pé direito as suas publicações de HQs/Graphic Novels, com um material tão rico e interessante como Meu Amigo Dahmer. Darkside, manda mais que tá pouco.