A Sereia de Santa Murgen, do brasileiro Miguel Paes, conta a história de Ícaro, um homem que, após o misterioso desaparecimento de sua mulher, Sarah, se perde no mundo das drogas. Após ser ameaçado de morte por um chefe do tráfico, ele decide que irá com sua filha Christie para a ilha de Santa Murgen, onde tentará reatar os laços com a filha e recuperar a memória de sua mulher, ao mesmo tempo em que foge dos problemas em sua cidade. Mas Santa Murgen não vai se revelar o paraíso do qual Sarah falava.

A obra seria uma história de suspense interessante caso, dentre outras coisas, tivesse se mantido no enredo proposto pelo título e explorado a mitologia da ilha e relação de Sarah – e Christie – com a lenda da sereia. Ao invés disso, o leitor precisa suportar a maior parte do livro abordando o vício e os problemas de Ícaro. Não fosse pelo prólogo e algumas poucas outras citações, o título do livro passaria completamente despercebido. Nem as últimas páginas, que abordam um pouco mais o assunto, conseguem disfarçar o fato de que título e livro simplesmente não combinam.

Outra coisa que quase não faz diferença não é uma coisa, mas uma personagem: Christie, filha de Ícaro e Sarah. A menina é extremamente apática durante todo o livro – o que seria justificado pelo desaparecimento de sua mãe. Mas isso não explica também por que a menina é apresentada como a razão para a viagem à Santa Murgen e como conexão entre a lenda e a vida deles, mas não tem nenhuma real importância para os acontecimentos do livro. Christie poderia ter sido uma personagem mais complexa, com mais falas. Ao invés disso, nos deparamos com uma personagem que tem zero utilidade ou presença no livro.

Ícaro, por outro lado, é um personagem com mais potencial. Até pelo fato de que seus pensamentos serem apresentados exaustivamente ao leitor, é possível compreender melhor os anseios, medos e vontades do homem. Sua personalidade egoísta, por exemplo, é muito bem construída. Apesar de algumas situações pelas quais ele passa soarem um pouco exageradas demais – como ao final do livro, quando ele está em uma espécie de surto nervoso -, suas atitudes diante delas sempre se mantêm dentro do personagem.

A história vai avançando um pouco sem roteiro até o final, onde nos depararíamos, afinal, com uma explicação sobre o desaparecimento de Sarah e sua relação com Santa Murgen. O penúltimo capítulo se baseia nisso, mostrando como Ícaro e Sarah se conheceram, até os tempos atuais. As descobertas, porém, que deveriam ser surpreendentes e esclarecedoras, são apenas confusas. Sabemos que Ícaro não é quem pensávamos que ele era e que na verdade ele foi o responsável pela morte de Sarah, mas não sabemos se os acontecimentos seguintes foram fruto da imaginação do homem, de uma conspiração do destino ou outra coisa. Ao final, Sereia de Santa Murgen tem um enredo interessante, mas peca na execução, que é confusa e difícil de agradar os leitores.